Metade de mim está nas sombras.
Acho que é a metade de mim que está com você.
Já não sei mais, se metade de mim é você,
Ou se sou metade de algo, que mesmo sendo dois, é um.
Veja, preto e branco formam um cinza triste.
Percebe agora o que eu quis dizer?
Eu sou o branco, meu amor.
E pra lhe representar só resta o preto fúnebre.
Me desculpe pela cor tão escura.
Ela não faz jus aos teus olhos azuis, eu sei.
Mas entenda, que preto e branco formam cinza,
E por isso somos duas cores que ainda assim são uma.
Mas, sendo cinza, somos a metade um do outro.
É um jogo de matizes.
Você às vezes é tão meu, que nosso cinza é quase prata,
E amiúde sou tão sua que os descuidados vêem negro o nosso amor.
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A garotinha saltitava pela casa. Carregava consigo a boneca de porcelana novinha em folha. Fora seu presente de aniversário de 10 anos.
Seu pai dissera que era uma data muito importante “Tens uma década, eu tenho cinco!”.
O primo passou correndo pela garota no jardim. Era seis anos mais velho e gostava de caçoá-la. Arrancou—lhe a boneca das mãos e saiu correndo.
Ela chorava.
Ele ria.
Roubara a sua boneca.
A garotinha vagava pela casa. Estava triste por não ter a boneca, mas era orgulhosa desde pequena e não ia chamar a mãe para recuperá-la.
Quando teve certeza que todos estavam dormindo esgueirou-se no quarto do primo, pé ante pé, à procura da boneca.
Uma tábua rangiu. Ele acordou sobressaltado. Avistou a prima e tratou logo de soltar a boneca que ele adormecera abraçando.
“Nunca mais entre no meu quarto!” Gritou furioso, jogando a boneca com toda a força no chão e saindo batendo a porta.
Ela ajoelhou-se, as lágrimas saindo dos olhos, a boneca estilhaçada no chão.
Ela chorava.
Ele esbravecia.
Partira a sua boneca.
A moça andava pela casa, usava seu primeiro salto alto e um vestido elegante, até maquiagem pudera colocar. Era uma grande festa, seu presente de 15 anos.
Sua mãe dissera que era uma data muito importante “Agora já és uma moça!”.
O primo caminhou a passos lentos pelo salão, vendo a moça, que um dia fora uma garotinha, dançar com toda sua graça. Ele já era um homem, com seus 21 anos. Arrancou-a do salão, levou-a para um corredor vazio, roubou-lhe um beijo demorado. Saiu correndo.
Ela chorava.
Ele se confundia.
Roubara o seu coração.
A moça vagava pela casa, estava triste pelo que o primo fizera. Mas agora, com quinze anos, era ainda mais orgulhosa e não contaria para ninguém.
Quando teve certeza que todos estavam dormindo esgueirou-se no quarto do primo, pé ante pé, queria conversar sobre o acontecido.
Desta vez não pisou na tábua que rangia, mas ouviu um barulho semelhante. Um gemido. Ela abafou uma exclamação de surpresa. Ela ouviu. Virou-se sobressaltado, largando a garota que ele beijava pensando na prima.
“Eu já não te disse pra NUNCA entrar aqui?” Ele gritou fora de si.
“Você me beijou!” Ela acusou em tom de amargura.
“Não quer dizer que eu te ame!”.
Ela saíra rápido, antes que ele a empurrasse e o contato de suas peles fosse demais para ela.
Fechou a porta do banheiro com violência, se olhando no espelho.
Ela chorava.
Ele mentia.
Partira o seu coração.


***
Mais um texto meu…Eles andam um pouco melancólicos, admito. Voltem sempre !!
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Um espelho
“Oculus animi index (Do Latim: Os olhos são a janela da alma)”.
Olho de relance pelo espelho da penteadeira, ele dorme com a calma de quem saciou suas ânsias.
Há um quê de abuso no ar, parece-me que a máscara da sedução que ele usava caiu junto com suas roupas. E ficou jogada naquele canto, perdida entre minhas próprias roupas.
E eu ali, refletida no espelho despida de panos, vestida com a alma.
Alma que nele eu não podia ver, pois ele tinha os olhos fechados. E penso que, mesmo se não tivesse, haveria ali pouca coisa para ver… Pouco sentimento.
Aqueles olhos negros me refletiam sempre um pecado, dos mais diversos.
Me olhara com cobiça quando estava com outro homem e com gula quando não pôde me tocar. Ainda na noite passada, me transmitira a mais pura luxúria e agora eu temia encarar seus olhos abertos, pois poderia encontrar indiferença.
Medo. Minha alma refletia o medo que eu sentia no meu olhar aflito, nos meus braços que se apertavam à volta do corpo, numa clara tentativa de manter o coração protegido.
Olhei o espelho de soslaio e os únicos olhos que me fitaram foram os meus próprios, refletindo, nas pupilas escuras, uma cama vazia.
***

Georges Rouault, Woman at a Mirror, 1906.
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O texto é de minha autoria (sem pretensões) e a gravura do pintor expressionista Georges Rouault (estou tentando pronunciar até agora!). Sim, era francês… (vou adicionar o biquinho ao nome…quem sabe melhora…). Eu gosto dos expressionistas, fazem jus ao nome e tem uma profundidade emocional em seus traços. Tem muito mais graça que a pintura clássica, pelo menos pra quem vive na era da fotografia digital…
Espero que estejam gostando do cantinho…Voltem sempre!
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“Psiquê (Palavra grega que significa tanto alma, como borboleta) era uma jovem tão bela que de todas as partes acorria gente para admirá-la. Passou mesmo a ser objeto de culto, sobrepondo-se a Vênus (Também conhecida como Afrodite, a deusa da beleza e do amor), cujos templos se esvaziaram. A deusa indignou-se com o fato de uma simples mortal receber tantas honras. Pediu a seu filho Eros (Cupido, no panteão romano) , o deus do Amor, que atingisse a jovem com suas flechas, fazendo-a enamorar-se do homem mais desprezível do mundo. Entretanto, ao ver a princesa, o próprio Eros apaixonou-se e, contrariando as ordens da mãe, não lançou suas setas.
Enquanto as irmãs de Psiquê casaram-se com reis, a jovem mortal, cobiçada por um deus, permaneceu só. Apreensivo, seu pai consultou o oráculo de Apólo. Este aconselhou o soberano a levar a filha, vestida em trajes nupciais, até o alto de uma colina. Lá, uma serpente iria tomá-la como esposa. As ordens divinas foram executadas e, enquanto a jovem esperava que se consumasse seu destino, surgiu Zéfiro(Na mitologia grega, é o vento do Oeste). O doce vento transportou-a até uma planície florida, às margens de um regato. Esgotada por tantas emoções, Psiquê dormiu. Quando acordou, estava no jardim de um palácio de ouro e mármore. Ouviu, então uma voz que a convidava a entrar. À noite, oculto pela escuridão, Eros amou-a. Recomendou-lhe, insistentemente, que jamais tentasse vê-lo. Durante algum tempo, apesar de não conhecer o amado, Psiquê sentia-se a mais feliz das mulheres. Saudosa de suas irmãs, pediu ao marido para vê-las. Zéfiro encarregou-se de levá-las ao palácio. Invejosas da riqueza e felicidade de Psiquê, as jovens insinuaram a dúvida em seu coração. Declararam que o homem que ela desconhecia devia ser o monstro previsto pelo oráculo. Aconselharam-na, então, a preparar uma lâmpada e uma faca afiada: com a primeira, veria o rosto do marido; com a segunda, poderia matá-lo, se fosse mesmo o monstro. À noite, enquanto Eros dormia, Psiquê apanhou a lâmpada e iluminou-lhe o rosto. Viu, então, o mais belo jovem que já existira. Emocionada com a descoberta, deixou cair uma gota do óleo da lâmpada no ombro do deus. Este despertou sobressaltado e foi embora, para não mais voltar. Afastando-se, disse-lhe em tom de censura: “O amor não pode viver sem confiança”.
Cheia de dor, a jovem pôs-se a errar pelo mundo, implorando o auxílio das divindades. Entretanto, como não quisessem desagradar a Vênus, nenhuma delas a acolheu. Psiquê resolveu dirigir-se à própria Vênus. A deusa encerrou-a em seu palácio e impôs-lhe os mais rudes e humilhantes trabalhos: separar grãos misturados; cortar a lã de carneiros selvagens; buscar um frasco com a água negra do rio Estige. Na primeira tarefa, Psiquê foi ajudada pelas formigas. Na segunda, os caniços da beira de um regato sugeriram-lhe que recolhesse os fios de lã deixados pelos carneiros nos arbustos espinhosos. E, na terceira, uma águia tirou-lhe o frasco da mão, voou até a nascente do Estinge e trouxe-lhe o líquido negro. Finalmente, Vênus incumbiu-a de ir aos Infernos para obter um pouco da beleza de Prosérpina. Uma torre descreveu-lhe o itinerário para o reino das sombras. Orientou-a também para pagar o óbolo ao barqueiro Caronte e abrandar a ferocidade d cão Cérbero, oferecendo-lhe um bolo.
Bem sucedida na prova, Psiquê voltava com a caixa contendo a beleza, quando resolveu abri-la. Imediatamente foi tomada de um profundo sono. Eros, que a procurava, acordou-a, picando-a com a ponta de uma flecha. Em seguida, o deus do amor dirigiu-se ao Olimpo e pediu a Júpiter para esposar a mortal. Foi atendido, mas antes, era preciso que Psiquê recebesse o privilégio da imortalidade. O próprio Júpiter ofereceu ambrosia à jovem, tornando-a imortal. O casamento celebrou-se solenemente entre os deuses. Da união de Eros e Psiquê nasceu aVolúpia.”
Dicionário de Mitologia Greco-Romana
Na minha humilde opinião, uma das mais belas hitórias de amor da Mitologia. Gosto do significado de Psiquê, ambos, alma e borboleta. Mas principalmente o primeiro. Vem daí a origem da Psicologia, Psique + Logia, o estudo da alma, porque não?
Volúpia, a filha de Psiquê e Eros, é a persofinicação do prazer em todas as suas formas. E o que mais prazeroso do que amar e ser amado?
Sim, sim… Pra alimentar nossos sonhos.
Bem vindos ao Blog, by the way.
Voltem sempre!
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“L’enlèvement de Psyché” de William Adolphe Bouguereau.
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