Ana era uma garota esguia. Assim, toda pouca. Pouca roupa, pouco interessante, pouca gordura. Mas era Ana, e era bela, e isso parecia bastar para que, de noite em noite, fosse grande. Assim, toda muito. Muito sedutora, muita bebida, muitos garotos. Andava sentindo algo a mais, algo qualquer que não condizia com seus poucos sentimentos, e poucas reflexões em geral, e talvez, só talvez, isso estivesse tornando-a finalmente algo a mais, muito melhor. Ana pode ter percebido logo de cara, pode até ter mudado junto e deixado todo aquele velho-ser pra trás de si, lentamente, junto com as camadas mortas de sua epiderme, e o cabelo cortado na altura do queixo bem desenhado. Mas, Pedro, João, Marcos, Felipe, Fernando, André, Mateus e outros tantos não viram nada. Exceto, talvez, por um ou outro que reparou o cabelo cortado. Desaprovaram, caia-lhe melhor longo, sedutor e irresistível. Não percebiam então, que não era isso que LHE importava? Ora, mundinho de desatentos. Todos portando dois olhos, vendo tudo em cores e três dimensões. Até tinham, por santo deus, visão periférica. Mas a interior lhes faltava de forma lastimável, era uma cegueira mesmo sem cura. Ouso dizer que era uma doença patológica. Gravam a primeira imagem, e lá ela fica, como uma foto antiga e desatualizada, que já não condiz com a verdade. Afinal, quem era aquela mesmo? Ana chorou por um tempo, largar àqueles que conhecia era mais difícil do que largar as madeixas sedosas no salão, mas no fim, precisava que outros cegos tirassem uma novo foto dela. Aquela estava cheirando a mofo! Ana – repaginada, Ana-ela-mesma. E os outros, eram todos novos outros. Dos velhos, sobraria só o cheio forte de naftalina, e alguns bolores deliciosamente nostálgicos. Ana se foi. E Ana se vai. Ana muda. Ouvi dizer que esta semana pintou os cabelos de vermelho, talvez mude o nome pra Carolina. 
Fênix
1 maio, 2010 por cupidandpsyche
Ana, é mulher.