A garotinha saltitava pela casa. Carregava consigo a boneca de porcelana novinha em folha. Fora seu presente de aniversário de 10 anos.
Seu pai dissera que era uma data muito importante “Tens uma década, eu tenho cinco!”.
O primo passou correndo pela garota no jardim. Era seis anos mais velho e gostava de caçoá-la. Arrancou—lhe a boneca das mãos e saiu correndo.
Ela chorava.
Ele ria.
Roubara a sua boneca.
A garotinha vagava pela casa. Estava triste por não ter a boneca, mas era orgulhosa desde pequena e não ia chamar a mãe para recuperá-la.
Quando teve certeza que todos estavam dormindo esgueirou-se no quarto do primo, pé ante pé, à procura da boneca.
Uma tábua rangiu. Ele acordou sobressaltado. Avistou a prima e tratou logo de soltar a boneca que ele adormecera abraçando.
“Nunca mais entre no meu quarto!” Gritou furioso, jogando a boneca com toda a força no chão e saindo batendo a porta.
Ela ajoelhou-se, as lágrimas saindo dos olhos, a boneca estilhaçada no chão.
Ela chorava.
Ele esbravecia.
Partira a sua boneca.
A moça andava pela casa, usava seu primeiro salto alto e um vestido elegante, até maquiagem pudera colocar. Era uma grande festa, seu presente de 15 anos.
Sua mãe dissera que era uma data muito importante “Agora já és uma moça!”.
O primo caminhou a passos lentos pelo salão, vendo a moça, que um dia fora uma garotinha, dançar com toda sua graça. Ele já era um homem, com seus 21 anos. Arrancou-a do salão, levou-a para um corredor vazio, roubou-lhe um beijo demorado. Saiu correndo.
Ela chorava.
Ele se confundia.
Roubara o seu coração.
A moça vagava pela casa, estava triste pelo que o primo fizera. Mas agora, com quinze anos, era ainda mais orgulhosa e não contaria para ninguém.
Quando teve certeza que todos estavam dormindo esgueirou-se no quarto do primo, pé ante pé, queria conversar sobre o acontecido.
Desta vez não pisou na tábua que rangia, mas ouviu um barulho semelhante. Um gemido. Ela abafou uma exclamação de surpresa. Ela ouviu. Virou-se sobressaltado, largando a garota que ele beijava pensando na prima.
“Eu já não te disse pra NUNCA entrar aqui?” Ele gritou fora de si.
“Você me beijou!” Ela acusou em tom de amargura.
“Não quer dizer que eu te ame!”.
Ela saíra rápido, antes que ele a empurrasse e o contato de suas peles fosse demais para ela.
Fechou a porta do banheiro com violência, se olhando no espelho.
Ela chorava.
Ele mentia.
Partira o seu coração.


***
Mais um texto meu…Eles andam um pouco melancólicos, admito. Voltem sempre !!