Um espelho
“Oculus animi index (Do Latim: Os olhos são a janela da alma)”.
Olho de relance pelo espelho da penteadeira, ele dorme com a calma de quem saciou suas ânsias.
Há um quê de abuso no ar, parece-me que a máscara da sedução que ele usava caiu junto com suas roupas. E ficou jogada naquele canto, perdida entre minhas próprias roupas.
E eu ali, refletida no espelho despida de panos, vestida com a alma.
Alma que nele eu não podia ver, pois ele tinha os olhos fechados. E penso que, mesmo se não tivesse, haveria ali pouca coisa para ver… Pouco sentimento.
Aqueles olhos negros me refletiam sempre um pecado, dos mais diversos.
Me olhara com cobiça quando estava com outro homem e com gula quando não pôde me tocar. Ainda na noite passada, me transmitira a mais pura luxúria e agora eu temia encarar seus olhos abertos, pois poderia encontrar indiferença.
Medo. Minha alma refletia o medo que eu sentia no meu olhar aflito, nos meus braços que se apertavam à volta do corpo, numa clara tentativa de manter o coração protegido.
Olhei o espelho de soslaio e os únicos olhos que me fitaram foram os meus próprios, refletindo, nas pupilas escuras, uma cama vazia.
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Georges Rouault, Woman at a Mirror, 1906.
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O texto é de minha autoria (sem pretensões) e a gravura do pintor expressionista Georges Rouault (estou tentando pronunciar até agora!). Sim, era francês… (vou adicionar o biquinho ao nome…quem sabe melhora…). Eu gosto dos expressionistas, fazem jus ao nome e tem uma profundidade emocional em seus traços. Tem muito mais graça que a pintura clássica, pelo menos pra quem vive na era da fotografia digital…
Espero que estejam gostando do cantinho…Voltem sempre!